Dos “Prazeres” ao desgosto – da extinção das comunidades tradicionais no gerais

Chegamos a um grau de alienação da natureza que a maior parte da população regional confunde o cerrado com o deserto verde (e sazonalmente cinzento) de plantios mono culturais. Procurando um jovem barreirense o que tem no gerais, se obterá, com maior probabilidade, a seguinte resposta: “Soja, algodão, e estas coisas .” Está certo, incontestavelmente. Porém, diz isto como “estas coisas” nascessem por lá mesmo, no lugar do nada. E como nunca tivesse existido, não houvesse e jamais haveria outra coisa do que “soja, algodão, e estas coisas”.

Muito menos do que da flora e fauna natural do cerrado, este jovem, juntamente com a tremenda maioria da sociedade regional, sabe das comunidades tradicionais: gente que há gerações vem convivendo com o cerrado, se alimentando dele, se vestindo dele, se curando com as ervas dele, se conformando com a solidão nele. Grande parte destas comunidades geraizeiras já perdeu a sua identidade: simplesmente por falta de cerrado natural. Muitas foram extintas pela onda de grilagem das terras que até então lhes serviam como soltas, base de subsistência e fundos de extrativismo. Na realidade, a destruição das comunidades tradicionais tem sido varrido abaixo dos tapetes de uma historiografia tanto eclética como elitista da nossa região. O medo dos historiadores colabora, pois não são poucos que ontem grilaram e hoje comandam a região. Porém, que ninguém se iluda: Continuam muitas as agressões contra as comunidades tradicionais ainda existentes, em forma de fraudes fundiárias, manobras cartoriais, intimações políticas, ameaças físicas. Onde existe resistência, parece à luta de Davi contra Golias porque a sociedade deixa desamparadas tais comunidades, tratando as como tem tratado sempre o seu convívio: jogando à mercê do poder econômico.

Ora, há uma novidade paradoxal: Umas comunidades se sentem ameaçadas justamente por forças preocupadas com a preservação dos restos naturais do cerrado.

Precisa concretizar, enfatizando porém, que a comunidade a seguir mencionada de maneira nenhuma seja a única comunidade com o problema relatado.

No gerais de Formosa do Rio Preto, abaixo das cabeceiras do Rio Sapão, encontra-se a comunidade “Mata Verde”, mais conhecida como “Prazeres”, nome da propriedade central nesta região. Lá vivem aproximadamente 25 famílias, na maioria delas, há gerações. Apesar da sua extrema isolação geográfica (antigamente gastaram uma semana de carro de boi para Formosa, hoje pagam 250 reais de frete para fazer a feira mensal na sede do município), a população dos Prazeres mantém as suas posses com espírito de pura identificação com a região habitada. São pequenos produtores que plantam pequenas roças de subsistência, criam gado em regime de solta e extraem os recursos que a natureza por si oferece. Vivem humildemente, porém, visivelmente satisfeitos com o seu sustento. Impressiona a convivência harmônica desta população com o bioma local. Não há sinal nenhum de degradação ambiental, evitam-se queimadas e desmatamentos ao longo dos cursos de água, preserva-se o equilíbrio intacto da fauna e flora do entorno. Do início dos anos 80 para cá, a comunidade tem resistido a constantes tentativas de expulsão por parte de grileiros que têm conseguido apoderar-se de praticamente todas as chapadas entre os leitos dos riachos e rios regionais. A pior pressão foi feita por José Raul Alckmin Leão, cidadão chegante que tinha conseguido apossar-se da fazenda vizinha “Santa Maria”, posteriormente notificada como mega-área de grilagem pelo INCRA (veja “Livro Branco da Grilagem de Terras no Brasil”, INCRA – Brasília 1999, página 30).

Porém, grande parte das posses do povo dos “Prazeres” encontra-se dentro do perímetro da “Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins”, unidade de conservação integral decretada em 2001, com uma abrangência a cerca de 700.000 há, na maior parte localizadas no Estado do Tocantins, pegando uma ponta da Bahia na referida região dos “Prazeres”. Entre as unidades de conservação, uma estação ecológica segue a um regulamento muito severo, proibindo até a visitação pública. Quem mora ou trabalha nestas áreas, tem que desocupa-las, com direito a justa indenização.

De um ano para cá, o IBAMA de Tocantins começou a articular tais conseqüências para as famílias tradicionais dentro da estação. Para o povo dos Prazeres, foi e é um choque tremendo.

A agência 10envolvimento vem acompanhando o caso: Visita a comunidade, mantém contato com o IBAMA sobre a respectiva questão, procurou o “Centro Nacional de Desenvolvimento das Populações Tradicionais” a respeito (até o momento sem resposta). De princípio de acordo com a necessidade da implantação de unidades de conservação, a agência procura advogar de melhor maneira possível os interesses das comunidades atingidas. No caso concreto, defende a alteração do perímetro, pois a área referida fica na margem da estação: com uma pequena alteração deixa as terras dos Prazeres fora.

Entretanto, a 10envolvimento quer chamar, com muita insistência, a atenção da sociedade para uma reflexão sobre a situação absurda resultante da ocupação desordenada do cerrado: Hoje, com a maior parte do cerrado depredado pelo agro-negócio industrializado, cobra-se do estado rigidez em torno de conservação onde ainda há áreas conservadas. Aí, justamente aquela gente que tem preservado o cerrado, agora deve sair dos restos naturais dele. O povo dos Prazeres, e certamente todas as pessoas de bom senso, questionam com toda razão: Onde estava o Estado quando José Raul, nas proximidades nos Prazeres, drenou e secou a “Lagoa do Varedão” cujas águas abundantes corriam tanto para a bacia do Rio Tocantins quanto para a bacia do Rio São Francisco? Onde estava e está o IBAMA quando ao redor dos Prazeres se desmataram e desmatam anualmente milhares de hectares sem autorização, sem monitoramento, em parte por fins especulativos simplesmente a fim de “valorizar” estas áreas a serem negociadas? Porque o povo dos Prazeres tem que abandonar uma área que servirá como tipo de compensação do imenso prejuízo ambiental por outros causados?

“Prazeres” – quem gosta do cerrado e das suas veredas, concorda perfeitamente com a denominação da região de “Mata Verde”. Entretanto: Se as pessoas que habitam este lugar realmente forem obrigadas a abandona-lo, não terá como sustentar seu nome: virá um “Desgosto” –  antes de tudo, por conta da ignorância perpetuada de uma sociedade desinteressada pela história dos seus componentes humildes.

Martin Mayr
Agência 10envolvimento
Barreiras, 27.09.2006


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