O Redentor que chama para a libertação – Umas posições de Dom Ricardo sobre desafios sociais e políticos no nosso contexto regional contemporâneo

1991 Dom Richardo Weberberger em BrejolandiâA Agência 10envolvimento é fruto da visão pastoral, social e política do nosso saudoso bispo Dom Ricardo. “Hoje, na nossa pastoral social precisamos, antes de tudo, desmascarar as estruturas de injustiça e destruição, precisamos intervir com propostas e mobilizações, precisamos ter a ousadia de falar do Reino de Deus entre nós.” Na condição de atual coordenador da “10envolvimento”, quero invocar umas posições de Dom Ricardo que devem estampar a nossa persistente e esperançosa ação social.

No início do ano de 2010 Dom Ricardo começou a redigir uma palestra programada para um simpósio austríaco sobre questões de justiça econômica e social. Sua contribuição debruçou-se sobre o tema “Brasil – uma Igreja para os pobres. Experiências em torno dos conflitos de terra na Diocese de Barreiras”. Nos meses que seguiram, Dom Ricardo compartilhou comigo umas das suas reflexões acerca do tema. Mandou que eu pesquisasse uns dados, repassou anotações para que as comentasse. Pouco antes de viajar para a conferência da CNBB, ele me chamou e disse: “Martin, a minha palestra está pronta. Faça uma olhada, quero ouvir a sua opinião. Eu mesmo estou bem contente. No final das contas, com esta palestra acabo de refletir toda a minha história aqui.”

Esta frase é um legado. A palestra retrata a ocupação fundiária no oeste baiano e a problemática sócio-ambiental criada pela instalação da chamada fronteira agrícola. Assim, a frase “Com esta palestra acabo de refletir toda a minha história aqui” deixa claro que Dom Ricardo interpretou a sua caminhada, a estruturação da Diocese de Barreiras, a fundação das paróquias, a construção de igrejas e capelas, a formação de agentes, o envio de ministros e catequistas, a ordenação de padres, diáconos e a consagração de irmãs, os planos pastorais, etc. pelo ângulo se e como tudo isto tenha contribuído para uma vida melhor do povo, principalmente do povo pobre e alienado. O nosso bispo procurou na sua trajetória o que foi alcançado em prol da libertação do povo. Será que essa visão tenha sido sempre o principal indicador da nossa pastoral? Parece-me que haja desatenções. Não era próprio a Dom Ricardo de impor-se com sua convicção. Mas importa guardarmos na consciência a visão essencial do nosso saudoso bispo. Lembramos que Dom Ricardo estava muito grato pelos avanços da ação pastoral, mas nunca chegou a contentar-se com o alcançado – pelo fato que a realidade do povo não o permite.

O último depoimento de Dom Ricardo na Conferência dos Bispos em maio deste ano aponta para a mesma direção. A Assembléia debatia o “3º Programa Nacional de Direitos Humanos” proposto pelo Governo Federal. Dom Ricardo, sem negar proposições problemáticas na minuta governamental, chamou o colegiado dos bispos a valorizar o objetivo geral do programa, ou seja, a defesa dos direitos humanos; enfatizou a urgência do programa no que diz respeito aos direitos de acesso à terra, à água, à educação no campo.  Após a fala dele, muitos bispos levantaram-se e abraçaram-no comovidamente. “Se isto foi o meu último pronunciamento diante dos bispos, morrerei satisfeito”, confidenciou Dom Ricardo aos padres de nossa diocese, na reunião de despedida no início de junho.

Hoje temos em torno de 5000 famílias assentadas em projetos de Reforma Agrária na nossa diocese. A mesma tem impulsionado, no início decisivamente, a implantação de assentamentos rurais na região. Os primeiros projetos de Reforma Agrária “Angical” e “Senhor do Bomfim” de Santa Rita de Cássia são frutos da conscientização e mobilização popular desencadeada pela Pastoral da Terra da Diocese de Barreiras. Dom Ricardo insistia de manter na pauta dos planos pastorais a atenção pela Reforma Agrária. Ele conhecia a vida dos camponeses da região, e sabia da realidade nos assentamentos. Opunha-se veemente às críticas que julgam a Reforma Agrária como programa economicamente fracassado. “Pra mim, a Reforma Agrária não é prioritariamente uma questão de eficiência econômica, e sim uma questão de justiça social!”. É por isto que cobrava – nem sempre com êxito – dos padres e agentes pastorais que marquem presença na caminhada das comunidades assentadas. Ele mesmo visitava as áreas de assentamento, celebrava com as famílias assentadas, intermediava ajudas de infra-estrutura como prédios escolares, poços, bebedouros, etc. Sentia-se feliz quando conseguiu colaborar para uma idéia produtiva, como é o caso da entrega de leite no assentamento de Angical à qual subsidiava com a compra dos primeiros galões para coletar o leite.

“Dom Ricardo – apaixonado pelo povo de Barreiras e do Oeste”, leu-se numa faixa de homenagem ao bispo recém-falecido. De fato, ele amava a sua diocese, o seu povo. Mas, não foi poupado do sentido dolorido de “paixão”. Dom Ricardo preocupava-se muito com os crescentes problemas ambientais na nossa região, principalmente no que diz respeito à água. Ele magoava-se com a progressiva concentração de terra e renda no oeste, resultado da apropriação privada (e no berço vastamente ilegal) de terras públicas e da industrialização do setor agropecuário.  E Dom Ricardo aborrecia-se profundamente com a persistência de corrupção e jogo interesseiro nos meios político, jurídico e administrativo na nossa região. Ele estava bem informado sobre diversos descasos, pois uns lideres políticos, integrantes do poder judicial, chefes institucionais procuraram-no para desabafarem, para lhe contarem sobre abuso de poder, tráfico de influência e esquemas de propina que presenciavam. Como os informantes sempre pediram discrição, Dom Ricardo mantinha-se no papel de aconselhador e admoestador, pois assim considerava convir ao ministério que ocupava.  Cauteloso, às vezes até cético no que diz respeito à qualificação do desenvolvimento no Oeste Baiano dentro de curto prazo, ele mostrou-se com pé atrás sobre a criação de um novo estado em nosso entorno. É certo que redigira uma carta de apoio ao projeto de criação do “Estado São Francisco”, há três anos, juntamente com os bispos de Barra e de Bom Jesus da Lapa. Porém, sua simpatia pela emancipação territorial vinha esfriando bastante, na medida em que reparava cada vez mais figuras atidas a projetar-se pessoalmente, sem amadurecimento da projeção do estado novo em si.

De vez em quando, Dom Ricardo ironizou os seus próprios comentários sobre o quadro sócio-econômico na região, dizendo que precisava externar-se, mas que adiantava nada. A seguinte experiência tinha deixado seqüelas: No início dos anos 80 começou a onda de privatização fraudulenta das terras devolutas, em partes habitat para comunidades tradicionais de famílias geraizeiras respectivamente das soltas para o manejo comum da criação. Logo a situação fugiu do controle, e as comunidades antigas, posseiras sem registro cartorial, sobraram como as mais prejudicadas.  No meio destas perturbações, a nova diocese insistiu numa intervenção estatal. Neste contexto, foi criada a “Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI de Grilagem”; Dom Ricardo foi chamado como testemunho e depus no dia 11 de setembro de 1980 diante da comissão em Salvador. No seu depoimento, citou casos concretos de grilagem e cobrou que o Estado averiguasse a validez dos títulos já emitidos, que medisse as terras devolutas, passasse títulos definitivos para as comunidades tradicionais e vendesse as terras públicas a interessados que comprovadamente tinham intenções de produzir na região, dotando-os com escrituras consistentes. Na época, os deputados mostraram-se entusiasmados com as medidas propostas. Na prática, porém, não houve ação governamental nenhuma (a não ser a titulação altamente questionável de terras públicas em favor de sujeitos politicamente muito entrosados).  Olhando para a confusão fundiária nos dias de hoje, Dom Ricardo mostrou-se sinceramente indignado com as omissões cometidas pelo poder público.

Querendo entender melhor a postura social de Dom Ricardo, precisa lembrar do seu lema como bispo: “Redemptor Hominis” – “O Redentor do Homem”. O nosso saudoso bispo tinha apreendido e interiorizado de olhar para Jesus Cristo como princípio e fim de todo nosso entendimento, de toda nossa ação. Lembro de momentos quando questionei umas posições doutrinais da nossa Igreja Católica. Ouviu-me com paciência; respondeu então reconduzindo as minhas dúvidas ao mistério que Deus se fez homem em Jesus Cristo. “Uma posição, uma ação que não espelha esta verdade central da nossa fé, não serve; é alienação, é fuá.”

Olhando para o Redentor, percebemos como é primordial a atenção aos necessitados, e quanto são secundárias certas convenções eclesiais. Dom Ricardo parecia cada vez mais consciente disto, convidando para o olhar ao Cristo, sentindo a “leveza” do “fardo”, desprendendo-se de timidez e burocracias melindrosas. Que tenhamos a coragem e o compromisso de viver tal legado.

Martin Mayr
Diácono Permanente
Coordenador da Agência 10envolvimento

 

 


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