Rio das Rimas – Roberto Malvezzi (Gogó)

Reoberto Marvezzi "Gogó" - Sétimo dia de Novena

Roberto Malvezzi (Gogó)

Rio das Rimas

E ele que nasce pequenino,

franzino, feito um menino

Como que juntando gota a gota

Depois cresce, aparece

E de um fio de pavio

Se torna um rio.

Vai descendo esguio

feito uma serpentina

Que dobra na esquina

E cintila na luz matutina.

Vai deslizando na terra,

Contornando as serras,

Como que contornando

As curvas dos corpos das meninas

E ele que deveria descer para o sul

Decidiu subir para o norte

Por sorte mergulha no coração

De quem vive no sertão.

E desce lento, devagar

Como um bicho preguiça

Porque não precisa pressa

Dessa que o atormenta

Pelas mãos sangrentas

De seus inimigos.

Pois ele já sabe

Que basta caminhar

Pois o destino de um rio

Como já dizia mestre Paulo Freire

É um dia tornar-se mar.

E onde passa só deixa vida.

E deixa nomes

João, José, Maria,

Toinha, Aninha, Mariquinha

Bidó, Trajano, Herculano

Numa lista infinda

De gente sofrida e bonita

De gente permanente e errante

Que rima com Bom Jesus da Lapa,

Bom Jesus dos Navegantes

Ou com nomes do coração

Como Senhora da Soledade

E Maria da Conceição.

E desce machucado, violado, desmatado, estuprado

Carrega nas veias venenos, esgotos, agrotóxicos,

E tem seu corpo sangrado,

Retalhado, capado e

Recapado.

Parece que morre, mas não morre

Permanece com vida,

E as aves, os peixes, os bichos e as árvores

Ainda tem lugar para viver ao seu lado.

Por isso é um Velho Chico

Sempre velho e sempre novo

Que quase morto vive no coração do povo

E que agora pede socorro.

Um rio que tem nome de santo

Que canto, me encanto, não canso de falar

Um rio bonito, bendito, que parece infinito

Cujo nome sempre relembro e sempre repito:

Rio São Francisco.


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