Viva o Cerrado! Viva o Povo Geraizeiro!

Pquei de Ouro 2014.9Inserido na Pastoral Social da Diocese de Barreiras, a Agência 10envolvimento promoveu mais uma homenagem a pessoas, grupos e organizações que defendem uma convivência sustentável com o bioma Cerrado. Neste sentido, na noite do dia 26 de setembro, dez pessoas receberam o trofeu “Pequi de Ouro 2014”: As irmãs Caroline, Bianca e Andrea Duarte pelo programa de rádio “A Voz do Rio Grande”; a Srª. Isabel Figueiredo do “Instituto Sociedade, População e Natureza” de Brasília pela acompanamento de vários projetos no gerais do oeste baiano; o poeta Sr. Durval Nunes por sua literatura voltada às belezas do cerrado regional; a geraizeira Srª Vilma Santos pela decicação ao artesanato e à culinária na base do coco Babaçú; o geraizeiro e sindicalista Sr. Custódio Oliveira pela defesa do cerrado contra ocupações indevidas e queimadas; o geraizeiro Sr. António do Santo pela resistência contra a grilagem; o geraizeiro Sr. Gisélio Serpa pelo trabalho de orientação sindical para as famílias geraizeiras. – A festa da entrega foi marcada por uma linda apresentação de adultos, jovens e crianças do Reisado de Bebedouro. No ritmo da música “Batuque da Ema” trouxerem “ovos” de ema, abertos no palco para tirar deles os trofeus da noite. – Ainda na mesma noite comemorou-se o aniversário de 10 anos da Agência 10envolvimento. No meio de um público encantado de aproximadamente 350 pessoas, o nosso Bispo Dom Josafá, os padres Cristiano, Iolando, Mario e Pedro Felipe, várias Irmãs, muitos agentes pastorais e muita gente agradecida pela preocupação da nossa Igreja para como os recursos naturais e as comunidades tradicionais no nosso gerais.

 Diácono Martin

Andrea Duarte, Bianca Duarte e Caroline de Castro – Programa “Voz do Rio Grande”

Andreia, Bianca e CarilAndrea Duarte, Bianca Duarte e Caroline de Castro, filhas de Sr. Ruy Duarte Moura e Dona Maria de Fátima de Castro Duarte Moura, levam na comunidade de Barreiras o carinhoso apelido de “Fadinhas”, por esparramarem tanta simpatia, leveza e irmandade. No ano de 2009 conheceram, através de um grupo de teatro que integravam, a jornalista e ambientalista Isabel Vilela que vê na radiodifusão uma maneira eficaz de problematizar e divulgar as iniciativas ambientais no oeste baiano. O projeto recebeu o apoio do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Grande – (CBHRG) e criou o Programa “Voz do Rio Grande”, inicialmente colocado no ar por 15 voluntários semenalmente no Rádio Barreiras AM 790. A principal idéia do programa é dar voz e vez à população para questionar temas ligados ao meio ambiente na bacia do Rio Grande. – Desde então, o programa “Voz do Rio Grande” é transmitido semana por semana, no dia sábado, das 10:00 às 10:30 de manhã, no Rádio Barreiras. – Contudo, depois de pouco tempo muitos voluntários tinham abondonado o projeto. Quem o segura com firmeza e competência até hoje, são as “Fadinhas” Andrea, Bianca e Caroline. Andrea Duarte, esposa de Vitor Taschetto e mãe de Yelene, é graduada em letras pela UNEB. Bianca Duarte cursa geografia na Universidade Federal do Oeste Baiano. Caroline de Castro, casada com Fernando Castro Flores, é estudante de matemática do Instituto Federal da Bahia – IFBA. “Acreditamos no programa, na sua função social e ambiental; por isso, não deixamos o projeto acabar. São cinco anos de dedicação e amor à Barreiras e Região”, diz Andrea Duarte. Com essa postura de dedicação persistente em cima de ondas e modas conjunturais, as três irmãs tem se tornado referências para um engajamento ambiental autêntico e convincente.

 

António Batista Gomes

AntonioSeu Antônio Batista Gomes, conhecido popularmente como “António do Santo”, é muito respeitado e querido no extenso gerais de Formosa do Rio Preto. Nasceu na comunidade de Cachoeira, na beira do Rio Preto, e adquiriu um pouco de conhecimentos escolares no povoado de São Marcelo. Com 15 anos, começou a trabalhar como vaqueiro na região de Gatos, acima do encontro dos rios Preto e Santo. Depois da morte do padrão, continuou trabalhando por conta própria, fez moradia no Gatos e casou-se em 1970, fundando um lar logo muito cheio de filhos e filhas, sejam do casal mesmo, sejam de adoção. Ganhava a vida com a produção de farinha, a qual levava, numa viagem tropeira de três dias,  a Dianópolis no Tocantins. Ficou viuvo no ano de 1980, mas logo casou-se de novo, com Dona Darci que lhe deu mais uma filha. A partir do ano de 1976, o latifúndio “Estrondo” começou usurpar o lado direito do Alto Rio Preto, e já em 1978 pistoleiros da “Estrondo” chegaram na porta da de Seu António, ameaçando que iam derrubar a casa dele com um trator de esteira, caso não desocupasse imediatamente o trecho. Contudo, Seu António do Santo não cedeu à pressão. Juntamente com seu irmão Adão e com seu tio Pedro Preto fez viagens cansativos a Salvador e Brasília, chamando a atenção de autoridades, conseguindo acionar uma vistoria da Polícia Federal. As duas guaritas da “Estrondo” instaladas na terra do Gatos, o Seu António derrubou com os próprios braços. – Hoje, Seu António, homem geraizeiro de fibra, não mede forças para reforçar a luta geraizeira; participa de viagens de representação do nosso gerais, dá testemunho destemido da grilagem persistente na região e anima a juventude de seguir ao seu exemplo e construir uma vida livre e realizada em boa convivência com o nosso belo Cerrado.

 

Custódio Lopes de Oliveira

CustodioSeu Custódio Lopes de Oliveira nasceu na comunidade Várzea Cumprida, no gerais do município Tabocas do Brejo Velho. Filho de Anibal Lopes de Oliveira e Claudina dos Santos Oliveira, seguiu tocando a sua vida e criando a sua família própria no ambiente onde fora criado. É produtor camponês, zelo do seu gadinho, planta e aproveita o que o Cerrado por si oferece. Tudo com muito entusiasmo pela vivência geraizeira. Participou da fundação da “Associação dos Moradores da Várzea Cumprida, Cotovelo e Vazota”, no ano de 1995, procurando melhorias de desenvolvimento nas comunidades representadas. Desde então, a defesa das soltas comunitárias – essenciais para viabilizar a pecuária dos pequenos criadores da região – vem marcando um ponto chave das suas lutas. Presenciando muita destruição do gerais natural, tem abraçado cada vez mais determinadamente a defesa do bioma Cerrado. Para tanto, nunca se cansa em buscar informação, capacitação e parceria aonde quer que haja apoio para a sua luta comunitária. Neste sentido, Edite Lopes, conterrânea do gerais de Tabocas, virou amiga referencial para Seu Custódio. O mesmo foi eleito primeiro representante de comunidade geraizeiras no Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Grande, e entrou como pioneiro no Programa “Eco-comunicadores da Bacia do Rio Grande”, participando em muitas edições do Programa “A Voz do Rio Grande”. Desde 2008, vem participando ativamente da luta sindical dos Trabalhadores Rurais de Tabocas do Brejo Velho, atualmente na função de Secretário de Formação. Disposto a fazer frente às queimadas no gerais, entrou na “Brigada Aguia” do Programa “Bahia sem Fogo”, com resultados respeitáveis no combate a fogos descontrolados no gerais onde mora. – Deus gratificou o Seu Custódio com um grande senso de humor – e a todos nós com o seu sorriso meio-humilde, meio-esperto, contagioso que só.

 

Durval Nunes

Duval NunesDurval Nunes, engenheiro agrônomo com especialização em extensão rural e gestão ambiental, é natural do sul da Bahia. Na década de setenta, veio às bandas do Além São Francisco, para criar o Serviço de Extensão Rural. Com uma interrupção de dois anos na Costa do Marfim, Africa Oeste, Durval tem Barreiras como centro da sua vida, juntamente com os seus quatro filhos. Militou ativamente na AMINA – na época a mais auténtica organização ambientalista na região. Em 1995 criou a “Associação dos Criadores de Caprinos e Ovinos do Oeste”. De 2005 a 2008, ocupou a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo de Barreiras.  Neste mandato, Durval introduziu essências nativas em nossos logradouros, como chichá, gonçalo alves, perobinha do campo, pau ferro,  e coloriu a nossa cidade de ipês brancos, roxos, amarelos e rosas, como se pode ver na primavera no cais do rio Grande e na Rua Professora Guiomar Porto, no trevo da rodoviária e na porta de muitos colégios. – No entanto, o lado mais conhecido de Durval Nunes é o seu dom artístico. Sendo membro fundador da “Academia Barreirense de Letras”, Durval é poeta com toda fibra. Nunca se cansa de cantar, com brilho íntimo e amor envolvente, a beleza das nossas serras, rios, cachoeiras, arararas e chichás. Neste sentido, destacam-se as suas obras “Sinfonia das Águas” do ano de 2009 e a coleção de cartas imáginárias a “Minha cara mãe Calina”, editada no início deste ano. – Durval Nunes é um homem muito culto, mas sem frescura nenhuma: Por sinal, às vezes pode ser encontrado pastoreando umas cabeças de bodes brancos no bairro onde mora, numa satisfação de fazer inveja a qualquer um.

 

Gisélio Farias Serpa

GiselioSeu Gisélio Farias Serpa, nascido em 1947 no município de Formosa do Rio Preto, pode ser considerado o homem dos olhos mais azuis no mundo geraizeiro. Ficou orfão numa idade muito nova: Assim, Gisélio foi criado na casa de Seu “Preto”. Passou somente uma semana da vida dele numa escola. Não obstante, Seu Gisélio lê a Santa Palavra de Deus como poucos, citando trechos cumpridos de cor. – Casou com Dona Valdívia Barbosa de Farias, e com ela criou 8 filhos. Ganhou o sustento da família levantando casas, construido currais, cavando cisternas e quebrando pedras. Doado com uma inteligência rara, conseguiu trabalhar no INTERBA cubando terra e madeira no gerais. Durante todo esse tempo passou muitos meses do ano nos chapadões e nas veredas do gerais, trabalhando como vaqueiro e, a partir de 1974, soltando um rebanho de gado próprio no Alto Rio Preto. Em 1985 vendeu o gado e comprou uma terrinha na comunidade de Arroz, onde vive até hoje com sua família. – Começou a militância no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, sendo no início barrado por demostrar uma postura demasiadamente crítica frente ao latifúndio. Contudo, desde o ano de 2001 faz parte da direção do STR de Formosa do Rio Preto. – Seu Gisélio tornou-se o principal guia da 10envolvimento no extensíssimo gerais de Formosa do Rio Preto. Não há um morro, um brejo, um boqueirão que ele não conhecesse. Dono de uma sabedoria popular extraordinária sobre a fauna e a flora do Cerrado, explica como tudo é interligado. Diz, por exemplo, que o recuo dos pés de Jatoba ocorre por que faltam os porcos do mato que roem a polpa e fazem assim as sementes germinarem. “No dia da minha morte, morrerei com sinceridade”, conclui, com um largo sorriso, como vem levando a sua vida toda.

 

Instituto Sociedade, População e Natureza – ISPN

IsabelO Instituo Sociedade, População e Natureza – ISPN, sediado em Brasília, é um centro de pesquisa e documentação independente. Seu objetivo central é contribuir para um desenvolvimento sustentável com maior equidade social e equilibrio ambiental. Os trabalhos são focados nos povos e comunidades tradicionais, principalmente no bioma Cerrado. Neste contexto, o ISPN gere a fatia brasileira do fundo “Programa de Pequenos Projetos Ecosociais”, abastecido pelas Nações Unidas. Atualmente, esse fundo financia em torno de 400 projetos, entre estes o projeto “Gerações Geraizeiras”, protagonizado pela Agência 10envolvimento no cerrado de Formosa do Rio Preto, que visa o fortalecimento de comunidades geraizeiras e a convivência sustentável com o bioma. – O “Pequi de Ouro 2014” em homenagem ao “Instituto Sociedade, População e Natureza” de Brasília será recebido por Isabel Figueiredo, ecóloga natural de São Paulo com especialização em ecologia do Cerrado. Isabel intermedia e assessora a parceria entre o ISPN e as entidades executoras dos projetos. No caso da Agência 10envolvimento, “Gerações Geraizeiras” já é o segundo projeto subsidiado pelo ISPN, depois do exitoso projeto “Veredas Vivas” aplicado na comunidade “Ponte de Mateus”, a qual nos brinda nesta noite com uma galinhada com pequi. Isabel conhece de perto as belezas e as mazelas do cerrado baiano. Com seu astral sempre positivo, Isabel cria um clima de facil diálogo, responsabilidade compartilhada e muito pique para lutar pela causa do Cerrado.

 

Vilma Santos da Silva

VilmaVilma Santos da Silva é filha do finado Agripino Joaquim da Silva e de Dona Valdete Gomes da Silva, da comunidade Barreiro do Sítio, no município São Desidério. Tem seis irmãos. Passou a infância e adolescência na beira do Rio Grande no gerais de São Desidério. Com 23 anos de idade, mudou-se para Brasília onde conseguiu formar-se em contablidade e radiologia. Trabalhou por doze anos na capital, mas, concursada e chamada pela Prefeitura Municipal de São Desidério para o cargo de radiologista, não hesitou em voltar à terra natal. Recentemente – exatamente há um mês e quatro dias – casou-se com Sr. Cleristo de Jesus Nascimento, firmando mais ainda o seu presente e futuro perto do Rio Grande. – A comunidade Barreiro é marcada pela beleza e utilidade das palmeiras Babaçú. Vilma, familiarizada com o aproveitamento do coco babaçu, interessou-se por conhecimentos e técnicas de beneficiamento aprimorado. Com essa inspiração, e preocupada com os projetos de barramento do Rio Grande para geração de energia elétrica, Dona Vilma resolveu engajar-se no programa “Nosso Rio, Nossa Terra, Nossa Vida”, implantado pela Agência 10envolvimento no intúito de apoiar a resistência de comunidades ribeirinhas contra a perca do seu território tradicional. Logo Dona Vilma destacou-se como uma das mais dedicadas participantes nos diversos encontros sobre extrativismo, artesanato e identidade geraizeira. A partir deste ano, Dona Vilma começou ministrar por conta própria, mas sempre em sintonia com a Agência 10envolvimento, palestras e cursos sobre beneficiamento de frutos do Cerrado. Ela vem represenando a população geraizeira da bacia do Rio Grande em lugares como Salvador, Brasília, Montes Claros, Bom Jesus da Lapa, Barreiras e outras, com muita delicadeza, simplicidade e autenticidade geraizeira.

 


Associação do Desenvolvimento Solidário e Sustentável (ADES) – 10envolvimento
Rua Ipanema, 204 - Vila Dulce, CEP: 47800-261 Barreiras – BA
Fone (77) 3613-6620 | Email: 10envolvimento@uol.com.br